Recentemente, tenho recebido muitos ataques no Instagram por pessoas que gostam de espalhar discórdia e maldade. Isso tem acontecido muito (e vai acontecer ainda mais, com as flexibilizações do ódio que vêm ocorrendo nos últimos meses e ascensão do neofascismo no mundo), e são sempre desmedidos. Ódio é sempre desmedido, mas eu usei essa palavra aqui porque as respostas foram ataques desproporcionais aos comentários que eu faço – que são sempre positivos.

Ao ver os comentários de resposta(todos, sem exceção, de ataques) noto que são sempre vindo de homens, e que no perfil deles tem alguma mensagem de amor a Jesus, trecho bíblico ou declaração de amor à família. O que é interessante, considerando que o que eles menos fazem é ser cristãos, seguir a bíblia ou amar o próximo.


Não foi assim que fui ensinada. Sou cristã, gosto da bíblia, e a minha família me ensinou o que é amar. Não me ensinaram o que é amor. Porque amor, propriamente dito, eu descobriria sozinha na minha vida, nas minhas andanças, enquanto ser errante. Amar, sim. E não sei botar em palavras o que esse grande verbo representa. Mas sei botar em ações.
Num sábado de verão, há pouco tempo, eu tinha um roteiro bem apertado. De manhã, iria ao Jaçanã, em São Paulo, visitar um projeto de sucesso. À tarde, encontraria minha amiga-irmã Talita para um café, e à noite, juntas, iríamos numa gira de terreiro de umbanda – no meu caso pela primeira vez na vida, sem saber o que esperar – do outro lado da cidade, no CEU Estrela Guia. Foi uma correria total.
Na Zona Norte, no Prato Verde Sustentável, cheguei num horário bom, com antecedência. Abriram o portão para mim, estacionei. Conheci, enquanto aguardava o início das atividades, uma nutricionista maravilhosa chamada Natasha que também estava aguardando. Conversamos, e a afinidade foi altíssima, amizade à primeira vista. O sol estava forte, e estávamos sentadas do lado de fora, cercadas pelo som de pássaros diversos, algumas abelhas e mosquinhas polinizadoras aparecendo e se despedindo, várias borboletas coloridas atravessando o corredor, e a sensação de pertencimento que nos rodeava.
Iniciado o dia, começaram as apresentações. Tínhamos os gestores do projeto, Wagner Ramalho, sua companheira Tainá Salomão, o educador Jean Carlos, e uma equipe maravilhosa de suporte. Estávamos na Trilha Prato Verde Sustentável, onde algumas vezes eles abrem para a comunidade exterior uma visita guiada com direito a um delicioso almoço feito por eles.
Começamos conhecendo o biodigestor. Tinham um aparato instalado com o apoio da empresa Biocult que, com 3kg de resíduo orgânico, fornecia gás de cozinha para 2h em um fogão de duas bocas. E isso é importante! Imagine a quantidade de energia que produziríamos se fizéssemos esse trabalho em, digamos, 10% do lixo orgânico que acaba em aterros. De acordo com a Embrapa, por volta de 700 milhões de toneladas desse tipo de resíduo não tem destinação diferente, então vamos fazer uma brincadeira: Suponhamos uma cidade de 100 mil habitantes, que possui fogão 4 bocas, e que cozinha por 4h por dia.

3kg de lixo geram 2h de gás para um fogão 2 bocas. Então, para um fogão 4 bocas geraria 1h de gás.
Se 3kg de lixo geram isso, 700 milhões de toneladas(1 tonelada = 1000 quilos) geraria um terço disso em horas(mais de 200 bilhões de horas, se meu cálculo estiver correto). Mas minha calculadora não é científica. Vamos fazer isso para apenas 100 mil habitantes, reciclando somente 10% desse lixo supracitado. Então, teríamos, para 4h de gás, fogão 4 bocas, aproximadamente 230 mil h de uso. O que daria mais de 50 anos de abastecimento de gás! Por que não estamos usando biodigestores nesse instante?
Com o choque de realidade tomado, fomos então para a dual-parceria entre aquaponia e aquicultura. Lá, havia um tanque de carpas – elas não eram para alimentação; viviam em tanques, como pets, e o seu resíduo nitrogenado era reciclado para alimentar as plantas em aquaponia. Para favorecer o não-uso de energia elétrica, a gravidade fazia parte do serviço: quando pronta para usar, a água nitrogenada que ia para as plantas era espalhada usando a própria gravidade, saindo do ponto mais alto até o ponto mais baixo do terreno em declive. Trabalhando mais inteligente, e não mais pesado.



Em seguida, conhecemos as abelinhas. Havia quatro espécies de abelhas, Mirim-Guaçu, Jataí, Mandaçaia e Iraí. Cada qual com suas personalidades e hábitos, todas trabalhavam incessantemente no fortalecimento da sua colmeia; para benefício dos humanos e das abelhas, em volta havia árvores frutíferas diversas que as pequenas grandes criaturas pudessem polinizar e se beneficiar do néctar ao mesmo tempo.


Conhecemos, então, o sistema permacultor implantado no local, com valorização de PANCs, respeito aos ciclos naturais das plantas, utilização de mulch, ou cobertura vegetal para proteção e nutrição do solo, composteiras diversas(vimos a leira, que é direto no chão; a termofílica, que é de alta temperatura, impressionante; minhocário, o mais famoso tipo de composteira nas redes sociais; e também em caixas d’água, muito eficiente para o espaço). E isso mostra mais um destino para o “lixo” orgânico: compostagem. Num ciclo completo, o alimento do humano serve de alimento para o solo, que uma vez nutrido alimenta novamente o humano. É bonito demais.


E aí fizemos uma parada. E o Wagner contou sua história, e a história das pessoas que vão naquele lugar, das famílias que são beneficiadas. Detalhes podem ser encontrados no próprio instagram deles, e especialmente no documentário Antes do Prato(recomendo! É de graça para assistir no YouTube). Mas ele me tocou. Eu sempre tive alimento na mesa. Mas eu sei o que é comer alimento nutricionalmente fraco, baixo em nutrientes, alto em gorduras saturadas, sódio e açúcar – porque é o que tem para hoje. E o povo precisa comer. Eu precisei comer. Mas essa ONG fez como missão alimentar a própria quebrada com comida fresca, nutritiva e orgânica. Eles fizeram como missão brigar pelos irmãos, pelos filhos, pelas mães, pais e avós. Eles literalmente cansaram de ver o próximo em condições inaceitáveis e, com as próprias mãos, levantaram e agiram. Já me inspirou para caramba. Mas, para arrematar, a Tainá veio conversar com a gente. E, pela primeira vez para mim, eu ouvi o termo ‘epistemicídio’. O termo foi cunhado pelo português Boaventura de Souza Santos, e significa:
a destruição de algumas formas de saber locais, à inferiorização de outros, desperdiçando-se, em nome dos desígnios do colonialismo, a riqueza de perspectivas presente na diversidade cultural e nas multifacetadas visões do mundo por elas protagonizadas
E ela ainda não deixou de acrescentar importante observação: a fome tem cor, tem gênero e tem endereço. E podemos ver isso com dados ainda mais oficiais na POF – Pesquisa de Orçamentos Familiares para ver que as mães de família, geralmente solo, pretas, são as que mais sofrem para comprar alimentos, e possuem maior parcela de participação na estatística de insegurança alimentar no Brasil. Não é coincidência.
Depois de conhecermos o berçário e a horta-mandala da ONG, inspirados, fomos almoçar. E meus sinceros parabéns e agradecimentos à equipe da cozinha, porque foi a melhor feijoada vegana que eu já comi na minha vida. Eu escolhi vegana(a única, risos! e eu não sou vegana, mas procuro sempre que posso reduzir e excluir alimentos de origem animal da minha mesa), mas eles fizeram também a tradicional.

Após terminar a minha abençoada refeição, eu vi do outro lado as famílias se alimentando com suas crianças, alguns idosos, mães(principalmente) e alguns pais. Eu sabia que eles estavam fazendo o trabalho certo. Prato Verde Sustentável, eu agradeço demais o trabalho das suas mãos.
Naquela noite, fui na minha primeira gira – Gira dos Caboclos – no terreiro. E assim que chegamos, entregamos as doações (contribuição voluntária na entrada, alimentos não perecíveis) e pediram para que sentássemos no corredor com cadeiras para refletirmos sobre o que gostaríamos, o que estava no nosso coração, um momento de introspecção. E foram 40 minutos.
A depressão me pegou muito forte e me deixou doente desde 2023, quando eu perdi o meu avô Erasmo(Erasmão). No ano que nasci, perdi a minha avó Floracy(Dona Nega), e quando criança perdi meu outro avô Erondino(o brabo). Minha avó Lucivalda(Lúcia) está bem, graças a Deus, com seus quase 80 anos – uma benção. Na verdade, eu cometo um erro ao dizer isso: todos eles estão bem. Estar bem não significa só estar aqui, nesse plano. Lá do outro lado eles estão bem também – eu diria até que melhor que nós. Enfim, ainda estou me recuperando fisicamente de várias mazelas no corpo físico, mas naquele dia 18 de janeiro, minhas mazelas espirituais começaram a encontrar cura.
Naqueles minutos de introspecção, refleti sobre o dia que havia se passado. De manhã, tomando café, assisti ao documentário que falei anteriormente, Antes do Prato. Fiquei bastante alegre por ver tanta ação humana em prol do ser humano e do meio ambiente. Depois, conheci pessoalmente o Prato Verde Sustentável. E vi o povo ajudando o povo. E agora, aguardando para entrar na gira, eu olhava em volta e via caixas e fardos de alimentos, água, fraldas… o CEU Estrela Guia faz quase que diariamente distribuição de marmitas gratuitas pelos voluntários do terreiro no centro da cidade de São Paulo. A missão é alimentar os nossos irmãos. Então, naquele momento, eu pensei: o que eu posso fazer também? Eu estava com sede de agir, queria justiça no mundo. Eu estava desolada há anos, desesperançosa, insatisfeita com o planeta, sem encontrar bondade nas ruas. Então, eu resolvi agir sim.
O meu jeito de agir foi lembrar da minha família. Dos meus avós, bisas(que só conversei por telefone), dos meus tios, da minha irmã, dos meus pais, dos meus primos. E lembrar da minha infância. Da minha criação. Lembrar do pão cortado em cubinhos pelo meu avô brabo que ele me dava na boca. Da rapadura escondida que meu avô Erasmão comprava para mim sempre que eu ia lá. Do brinquedo musical cor-de-rosa que ganhei da Dona Nega, sem mesmo me lembrar do dia, mas com o brinquedo comigo até hoje; dos banhos de bacia da vovó Lúcia quando eu era bebê. E dos papos com café com a vovó Naná, que também se tornou minha avó há muitos anos, e luta suas próprias lutas, e vence todas elas.
Então, porque minha saúde não permitia sair nas ruas distribuindo marmitas, ou cozinhar na cozinha solidária voluntária, ou plantar e colher numa horta comunitária, ou andar pelo Brasil vendo as iniciativas do ser humano para o bem, o que eu tinha em minhas mãos era o amor que eu recebi. E esse amor, desde aquele dia, é o que rege minha vida. Eu não quero mais espalhar ódio – o mundo já está cheio. Eu não quero criar ansiedade nos outros – eles já tem demais. Eu não quero me importar com o que dizem de ruim sobre mim – quem é relevante já me conhece. Eu quero passar paz onde eu for, e compreensão. E quero que todos recebam o carinho que eu recebi a minha vida inteira onde quer que eu vá, não importa quem.
Enquanto me recupero, ajo dessa forma. Quando eu puder sair por aí e andar longas distâncias, dar piruetas, correr e abaixar, eu o farei. Enquanto isso, uso minha voz, minhas mãos e meu coração. Foi assim que minha família me ensinou, foi isso que Jesus disse, é isso que os orixás pedem, é o que os Guias orientam, é a solidariedade que a Nossa Senhora tem, é a palavra do Senhor na bíblia.
Nos últimos dias tenho sonhado muito com pessoas me perseguindo com armas de fogo, facas ou tacos de madeira. São pessoas mal encaradas, homens ou mulheres, brancos, e que me seguem na rua. Porém, como um presente extra, no último sonho que tive desses, fugindo de um casal violento atrás de mim, eu apareci na minha casa onde cresci no interior. E na sala havia o meu avô Erasmão, que fisicamente se transmutava para o meu avô brabo. E os dois trocavam de forma alternativamente, sempre sendo os dois. Estavam no sofá, com uma manta leve. E eles me chamaram para me sentar com eles, e me embrulharam com a mantinha. Os perseguidores sumiram. E eu fiquei com eles. E eu soube que estava segura para continuar.
Não é difícil amar o próximo. Mas é o que a drag queen, cantora e cineasta RuPaul sempre diz:
Se você não consegue se amar, como raios vai amar o próximo?
Talvez seja por isso que haja tanta coisa ruim no mundo.
Referências:
Documentário Antes do Prato no Greenpeace Brasil(Youtube)
O que é Epistemicídio? Politize!
Prato Verde Sustentável no Instagram
Pesquisa de Orçamentos Familiares. IBGE
Mulheres, pretos e pardos são mais expostos à fome no Brasil. Notícia Preta

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