Um suco de limão cravo

Ano passado foi um período de renascimento para mim – se é que posso usar tão grande palavra. Mas, com a licença da grandiosidade do vernáculo, eu tive alguns momentos de transformação assim na vida. Um deles foi quando, aos 45 minutos do segundo tempo, imediatamente antes da pandemia, eu fiz um curso no meu estimado Parque da Água Branca, em São Paulo, pela Associação de Agricultura Orgânica (AAO) sobre hortas orgânicas urbanas. Como entrou a pandemia logo em seguida, aproveitei minha varanda avantajada de 6 metros quadrados (bem grande para um apartamento na cidade, até) e lotei até o teto – literalmente – de plantas. Colhemos e comemos alface, almeirão, tomate, morango, batata, batata doce, feijão… tudo plantado por mim e colhido por mim. Dado, é claro, pela natureza.

Depois, ano passado, em 2025, aí sim tive outra catarse. Conheci as cozinhas solidárias do MST, MTST e Movimento Brasil Popular; com ajuda, reconstruímos a cozinha do Jardim Pantanal, devastada pelas consequências políticas das chuvas e mudanças climáticas; conheci terreiros de umbanda pela primeira vez – e me encontrei; conheci ONGs e hortas comunitárias, como a Prato Verde Sustentável e a Horta Madalena; virei guardiã de sementes, aprendendo com o professor Tiago; ingressei no mestrado em Ambiente, Saúde e Sustentabilidade na Faculdade de Saúde Pública da USP (como tinha de ser, nada mais minha cara que esse curso!); fiz amigos para a vida toda; participei de uma Comunidade que Sustenta a Agricultura (CSA), a CSA Guapuruvu, de Cajamar; entrei para um Grupo de Consumo Responsável (GCR) chamado Alimentos em Movimento; entrei para a minha amada pós-graduação em Agricultura Urbana e Sustentabilidade Alimentar na PUC-PR; mas, especialmente, conheci um lugar que brilhou tanto os meus olhos que eles, deslumbrados pela luz do sol, nunca mais quiseram passar pela escuridão do desconhecimento e o marasmo da vida conformada. Eu conheci o acampamento Comuna da Terra Irmã Alberta, em São Paulo (capital). Sim, um acampamento, produtor de alimentos, orgânicos, agroecológicos, dentro da cidade de São Paulo.

Fui a convite programado do professor e coordenador do curso de nutrição na FSP-USP Wolney conhecer o local, com a grata companhia das (futuras) nutricionistas Sophia e Júlia e nos encantamos pela visita numa quarta-feira de tarde. Fomos recebidos pela Jô e pelo Cícero, diretores regionais do MST, e pelas histórias de luta e conquistas daquele acampamento. Falta a Comuna se tornar um assentamento, e é o meu mais profundo desejo que isso aconteça o mais brevemente possível. Ao chegarmos, fomos conhecer os espaços de convivência onde agentes de saúde e profissionais multidisciplinares atendem a certa frequência os agricultores de lá. E também a biblioteca de lá, com espaços para apresentações e reuniões culturais. Ah, claro, conheci a Branca e o Preto (dois doguinhos muito lindos, mas um mais simpático que outro… a Branca era brava, então eu a deixei quietinha. Mas o Preto veio pessoalmente me receber).

Depois, como estávamos a poucos dias – ou horas – da Feira Nacional da Reforma Agrária, que foi no Parque da Água Branca (novamente, meu querido parque, eternamente lutando para manter sua identidade frente às constantes ameaças político-governamentais de seu sucateamento e terceirização), ganhei brindes comestíveis – já comi azedinha de cara, orgânica, fresquinha e deliciosa.

Aliás, vale notar que o Cícero disse uma coisa muito real: nos lotes, de noite, existem capivaras que vêm comer a plantação. Mas de dia, a capivara era outra: eu. Tudo que me ofereciam, eu comia. Tudo que eu apontava, eu conhecia. Comi bem naquela quarta-feira.

Vimos a organização dos lotes e da comuna com nossos próprios olhos numa visita guiada, observando as tecnologias de captura e distribuição de água analógicas e eficientes, a plantação dos cultivares crioulos (tradicionais, orgânicos e não geneticamente modificados), o respeito à terra e o trabalho sintrópico com as espécies plantadas, plantas que não eram comestíveis, mas faziam parte do ciclo de proteção do solo e dos nutrientes naquela terra, e tamanho de terrenos que um ser humano teria condições de manter. Aliás, já diria Tolstói, de quanta terra precisa o homem? De que adianta latifúndios, hectares, acres, milhares de quilômetros quadrados de terra para alguém, se não será possível manter, cuidar, produzir? Ou se for usar máquinas pesadas, verdadeiros Transformers, para cuidar daquele espaço? Já disse várias vezes a agrônoma e mãe da agroecologia Ana Primavesi, que a terra que recebe o peso e o trabalho de máquinas pesadas machuca a micro vida no solo. Para quê?

Toda vez que recebo minha cesta de produtos da CSA Guapuruvu ou do GCR Alimentos em Movimento eu já vejo todo um filme na minha cabeça. Cada coisinha que toco já me lembra da minha visita. Eu sei de onde veio aquele limão cravo; eu lembro onde tinha essa atemoia; eu mesma colhi alguns açafrões da terra; ah, que delícia esses abacates! Trouxe no meu próprio bolso alguns naquele dia. É diferente conhecer quem planta sua comida – e onde o fazem. O significado do comer se torna mais precioso.

Meu grande amigo Sérgio, educador popular, e parte da luta pela Comuna da Terra Irmã Alberta, contou-me uma vez de um causo que ouviu do companheiro Tião (Sebastião) sobre a própria Irmã Alberta, em pessoa.

Para contexto, irmã Alberta foi uma freira italiana que atuou em vários lugares, mas completou sua jornada aqui no Brasil, em muitos anos de luta pela justiça e pelos mais desfavorecidos. Lá nos anos 2000, quando eu ainda era uma criança, nem fazia ideia do que estava acontecendo: em um protesto dos trabalhadores sem terra, a polícia resolveu utilizar-se de gás lacrimogênio para dispersar a multidão reivindicante. A freira estava junto no meio da galera.

Pois após o uso do gás, foi aquela bagunça: gente sendo puxada para lá, outros arrastados para cá, um protegendo o outro, tirando do meio da bagunça, da paulada, do gás. Olhos cegos temporariamente, lágrimas e ardor, somente por protestar – nós sabemos como é isso. Mas dissipando-se o gás, a visão voltou a clarear nos olhos do companheiros. E aí puderam todos notar: a freira, irmã Alberta, encarava a polícia, parada, firme, sem arredar pé, na frente de todos. E não saiu.

Isso não é caso isolado da história da irmã. Lutou a vida toda pela dignidade e justiça, como uma verdadeira cristã. Trabalhou com suas próprias mãos para ajudar, usou suas próprias palavras para defender, e caminhou com suas próprias pernas longas distâncias para conhecer os seus irmãos – não irmãos de igreja, mas irmãos diante de Deus. Afinal, ao que me parece, muitas vezes isso é esquecido.

Não à toa, a comuna agora leva seu nome. Há poucos anos ela faleceu – mas eu sei que sua missão foi cumprida. Resta, agora, continuarmos a trabalhar e exigir, para que seu serviço à humanidade não se encerre – seja, somente, uma semente boa, viável e saudável que vai gerar muitos, e muitos frutos.

Sejamos todos frutos, e sejamos todos sementes.

À luta, em frente, para cima, irmãos de planeta. A gentileza deve sempre vencer.

(bônus da minha bestie, a nutricionista Talita, que esteve comigo todo esse tempo em todas as lutas e batalhas vencidas, perdidas e ainda em progresso. Mandem feliz aniversário para ela, que ela faz em maio!)

Referências:

Associação de Agricultura Orgânica (AAO). Site institucional. Acesso em maio de 2026.

De quanta terra o ser humano precisa? Tolstoi, LN. Editora Expressão Popular. 2021.

MST se despede de Irmã Alberta, a lutadora do povo. Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST). 2018.

Pergunte o porquê ao solo e às raízes: casos reais que auxiliam na compreensão de ações eficazes na produção agrícola. Primavesi AM. Editora Expressão Popular. 2021.

V Feira Nacional da Reforma Agrária. Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST). 2025.

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Bianca

Sinta-se em casa com um chazinho, bolo, um bom livro (ou uma boa leitura aqui no site) e uma bonita, orgânica, fresquinha porção de Morangos e Mirtilos.

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