Pela primeira vez fui a uma cozinha solidária na cidade de São Paulo. A primeira que eu fui, “Cozinha Popular Dona Nega”, fica no Rio Pequeno, na Zona Oeste da cidade. Bem como tudo em São Paulo, via-se os contrastes entre uma comunidade marginalizada versus uma imensidão de prédios novos e de preços super estimados. Da Cidade Universitária da Universidade de São Paulo dá poucos minutos de carro ou até de ônibus. Na avenida principal, Avenida José Joaquim Seabra, via-se lojas de múltiplas utilidades, restaurantes e bares, veterinários e pet shops, além de clínicas odontológicas e bancos cooperativos. Bem parecido com a Avenida Jabaquara, mais perto da minha própria morada, com os mesmos motivos comerciais, mesmas placas e mesmos anúncios. Diferente, talvez, era o preço dos marmitex: vi alguns por 18, 20 reais na Zona Oeste, ao passo que na Zona Sul, por aqui, vejo por 28, 35 reais.
Parei na rua do endereço indicado por WhatsApp para mim no dia anterior, e deixei meu carro do outro lado da rua. Ainda não haviam chegado os outros voluntários, e só a dona da cozinha, a idealizadora e líder, estava abrindo a fachada e posicionando mesas para um café da manhã. Saí do carro e o tranquei, com as mãos cheias de caixas de tempero e minha mochila, e um senhor que subia a rua me perguntou, do outro lado:
-Hoje tem almoço?
E eu respondi que sim, e que seria quentinho, gostoso e com carinho. Ele sorriu e esfregou as mãos, empolgado. E seguiu seu caminho até a hora de pegar sua própria marmita gratuita.
Antes fosse mentira o que conto aqui.
Nas duas vezes que fui me voluntariar na cozinha, saí antes do almoço ser servido, pois na minha casa também o almoço precisava ser feito para a família. Mas pude ver pelos registros posteriormente dezenas, centenas de pessoas em fila aguardando sua vez para retirar o almoço do dia para si e para os seus. Requeria-se unicamente o nome, o número de marmitas que levar-se-ia para casa e um documento de identificação. Se não soubesse ou não tivesse esse último, não tem problema também. O objetivo é alimentar quem tem fome.
Mas Jeane, a líder da cozinha e idealizadora de toda a ação, contou-me da origem do nome. Minha amiga e colega de curso Suzana até perguntou se “Dona Nega era ela”, mas a pessoa a que ela se referia era a avó.
Dona Nega era mulher preta guerreira, gostava de abundância e não queria ninguém com fome. Foi o que eu ouvi enquanto cortava pimentão na mesa colocada. Cortamos bacias enormes de pimentão, cebola, tomate e descascamos alho. Eram em sua maioria mulheres, as voluntárias. Passavam na rua homens que nos cumprimentavam, e diziam “Bom dia, Senhoras!” ao que nós respondíamos “Bom dia!”, e Jeane acrescentava “hoje tem almoço de graça, pode vir almoçar, hem!”. Quem quer que fosse, era convidado para compartilhar a refeição, e até acrescentava para quem passasse um pouco mais devagar: se quiser, tem café preto e pão com geleia aqui!
A verdade é que Dona Nega é, coincidentemente, também o nome da minha avó. Avó por parte de mãe, partiu cedo demais. E também era preta, e também era guerreira, e também não queria ninguém com fome. De fato, dedicou a vida ao próximo, e cuidou até o fim – e cuida até hoje, do lugar que estiver. A coincidência do nome me arrepiou quando eu ouvi, e emocionou imediatamente a minha família ao contar os fatos. Todos sabem do poder que é o nome Dona Nega, e para tê-lo, deve merecê-lo.
A cozinha é um bar alugado na rua residencial. Vários carros passam, várias crianças correm, cachorros e gatos vivem, e gente chega, gente vai, gente chega. Muitos ficam, e ajudam também. Perguntam “quer trocar? Estou livre” para as voluntárias com as mãos cheirosas de alho; às vezes, a coluna ficava na posição natural a que foi condicionada, envergada. As toucas descartáveis eram de praxe para manter a segurança do alimento, as tábuas de corte bem lavadas, as facas bem amoladas. O irmão de Jeane, quando perguntaram se estavam boas as facas, ainda disse “faca aqui sempre está afiada!”. É dono de negócio de alimentação, e experiente, o rapaz. Dona Antônia, mãe, limpava os pimentões e botava as sementes numa bacia separada. Tirava os talos, e a carne do pimentão passava para mim e para a outra voluntária que também os cortava. Num ritmo só, eu recebia os pimentões, cortava com rapidez, botava na bacia limpa. Num mesmo compasso, eu recebia os tomates, cortava com rapidez, botava na cumbuca nova. Numa mesma harmonia, eu recebia as cebolas, picava com rapidez, botava no tacho. E o processo é terapêutico.
Ao levantar a cabeça, reparei que muitas mulheres ajudavam também. E contavam da vida, das dificuldades, da saúde e das doenças. Falavam dos seus planos, dos seus sonhos, dos seus medos e do cansaço. Falavam das férias, do trabalho, dos feriados que haviam de vir. E cortavam pimentão, tomate, cebola. E confidenciavam suas vidas a estranhas que compartilhavam com elas somente o espaço e o tempo, e nada mais. Sabíamos, no final do dia, da vida da outra, sem sequer saber seu nome. E saíamos leves.
A sensação foi a de trançar os cabelos. Não é só um momento estético. É o dar as mãos e compartilhar os corpos e almas em um momento determinado, com aquelas que a compreendiam, e podiam se abrir e se emocionar sem julgamento e sem censura. Censuravam-se exageradamente dia após dia, esmagadas as suas culturas, suas ambições e suas vidas por um planeta que não as respeita, não as considera, não as enxerga. Então, naquele momento, todas as estranhas eram família, e a partilha por um bem – alimentar quem tem fome – era uma desculpa para a alma, permitindo-a de se libertar em um leve momento de trabalho manual.
Da segunda vez, fomos em mais gente ajudar. Chegamos cedo também, sendo os primeiros junto à dona da cozinha, e nos mostramos prestativos. Os meninos picaram o bacon, nós picamos cebolas e debulhamos alho. Haveria também apresentação de capoeira, e os próprios capoeiristas puxaram cadeiras e começaram eles mesmos a picar couve.
Sugeri, ao notar que os talos poderiam acabar indo para o lixo, que fizéssemos farofa com eles. E foi acatada a sugestão, então fiquei picando todos esses que me vinham. Eu recebia agilmente os talos de couve, cortava com rapidez, e botava na panela grande. E conversávamos, sem saber os nomes de ninguém à mesa, e trocávamos confidências. E crianças vinham mostrar seus brinquedos, e café era oferecido a todos, e conforme foi chegando um número significativamente maior de voluntários, chegamos a ter um excedente de ociosidade. Mas uma preciosa ociosidade. A conversa valiosa gerada pelas muitas mãos e muitas bocas foi revigorante.
Na hora de jogarem a capoeira, a Mestra Janja cantou uma música e puxou todo mundo para ressonar também. E palavras foram ditas e repetidas, e eu não sabia o que eram, mas também participei. Ao término do som do último berimbau, ela disse o que significava. “Ainda estamos vivos”.
Apesar das chances e vontade dos grandes, ainda estar vivo é resistência. Alimentar o povo é resistência, dançar e cantar é resistência, jogar capoeira, cortar a couve, o pimentão, a cebola, o alho e o tomate é resistência. Oferecer o café a quem passa na rua é resistência. É coisa de gente querer ver a sua gente prosperar. E é o que fazia Dona Nega, e é o que faz hoje Jeane e todo os voluntários, em toda parte, todos os dias, mesmo anônimos, mesmo não lembrados.
Eu sinto falta de poder ter conhecido a minha Dona Nega. Eu só ouço falar de suas ações. Todas as Donas Negas por aí devem ser especiais. Todas deixam e deixaram seus legados. Acho que Jeane pode se chamar de Dona Nega, também. De fato, acho que eu conheci sim a minha Dona Nega. Eu vejo seu jeito nas gentilezas, no toque, no tato, no amor, no carinho e nas palavras dos seus filhos. Espero que eu também possa, quem sabe, ser que nem ela. A minha mãe já é.
Feliz dia das mães a todas as Donas Negas desse nosso Brasil. Elas não param nem que tentem. E elas amam hoje, ontem, e sempre.
Conheçam o Aquilombar Favela AQUI. E passem no próximo marmitaço.
Obrigada a todes os voluntários, e ao pessoal da cozinha popular Dona Nega por nos receber. E obrigada meus colegas de aventuras Daline, Sophia, Suzie, Luquinhas, Jão, Jp, Gabs, Teo e Julie!









































Esse post também faz parte da minha atuação como embaixadora de saúde planetária 2025(PESP-2025 | IEA-USP)

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