
Estive lendo o livro do famosíssimo antropólogo Raul Lody chamado “Tem Dendê, Tem Axé – etnografia do dendezeiro”. Ganhei de presente de aniversário ano passado um vale compras da Livraria da Vila, dado pela minha amiga-irmã Talita Lopes. E comprei logo esse e alguns outros livros(melhor presente que alguém pode me dar, livros e comida).
Logo no comecinho, o autor instrui o leitor com a definição de etnobotânica:
a etnobotânica é definida como o conhecimento tradicional das comunidades tradicionais sobre a diversidade vegetal do entorno e como vários povos fazem uso das plantas nativas encontradas em suas localidades, ou seja, como as comunidades de uma determinada região fazem uso das plantas nativas para alimentação, vestuário, arquitetura, e outras atividades domésticas.
Tem relação com os meus últimos meses, que têm sido de grandes aventuras. No início do ano, fiz uma capacitação para me tornar Guardiã de Sementes, ministrada pelo biólogo, guardião e mestre Thiago Luiz e sua esposa mestre Thalyane Silva, veiculada pela equipe da Horta Madalena, em São Paulo.

No dia que fomos até lá, choveu e saiu sol, arco-íris e muita boa prosa. Ao entrar na casa, com uma porção do muro feita de pau a pique, vimos instrumentos musicais, cadeiras e bancos, muita gente boa e uma linda mesa com sementes, bem grande e colorida.

Acredito que eu, mais algumas das outras pessoas que estavam ali presentes, fomos para a formação pensando em armazenar as sementes de forma inócua, sem interação com o externo, de maneira a durar por anos a fio e sobreviver a um apocalipse, transformando nossos sítios de escolha em um verdadeiro banco de sementes, similar a um bünker, por assim dizer. Logo aí fui pega de surpresa. O que o professor nos ensinou foi o contrário.
Sim, ele nos passou técnicas de armazenamento das sementes, mas a orientação mais valiosa que ele enfatizou continuamente foi: saiam daqui e plantem!
Semente deve ser plantada. O lugar das sementes é na terra. Plantem no quintal, na rua, na varanda, ou passem para alguém. Mas não deixem de plantar.
E, de fato. Plantar é revolucionário. Há alguns anos, dias antes da pandemia ser declarada, eu fiz um curso que acabou, invariavelmente, mudando minha vida. Foi com o professor Marcelo Noronha, agrônomo, na Associação de Agricultura Orgânica(AAO) no Parque da Água Branca, em São Paulo. Foi um curso de hortas urbanas orgânicas, especialmente em apartamentos. E muitos conceitos que eu nunca tinha ouvido na minha vida me foram apresentados, como o conceito de “sementes crioulas”.
Se jogarmos na plataforma de artigos científicos Scielo essas duas palavras juntas, só há 21 resultados(como constatado no dia 23/03/2025), e somente 6 desses são artigos que tratam de bancos de sementes ou uma análise mais voltada às ciências humanas, em contraposição aos primos-artigos que foram apresentados, sobre a morfologia ou resistência a fungos e outros bichos. Jogando o termo “sementes ancestrais”, encontramos apenas 3 resultados. Por sua vez, usando o termo “sementes tradicionais” há 63 retornos, dos quais somente 2 trazem uma análise etnobotânica e não puramente biológica.
Fiz questão de falar sobre isso, porque o professor Noronha nos disse que o agronegócio tenta há décadas botar as mãos nas sementes ancestrais, mas que por convenção dos grupos guardiões e detentores das sementes, não se compartilha com eles. Já o professor Thiago disse que, em alguns grupos de estudiosos, o termo “sementes crioulas” está sendo substituído por “ancestrais” ou “tradicionais”, pois, como o próprio dicionário Michaelis nos traz, a definição da palavra “crioulo”, formalmente, pode ser:
1 Diz-se de ou indivíduo descendente de europeus, nascido em uma das colônias de ultramar.
2 Que ou aquele que nasceu escravo em países sul-americanos, por oposição aos africanos que já chegaram escravizados a esses países.
3 Diz-se de ou indivíduo da raça negra nascido na América, por oposição ao originário da África.
4 Diz-se de ou negro nascido no Brasil.
5 Que ou o aquele que provém de determinado lugar, região ou estado. Reg (RS)
6 Diz-se de ou indivíduo nascido em qualquer parte do estado.
7 Diz-se de ou animal ou vegetal já nascido em país colonizado, por oposição ao que veio de outros países, em particular do continente europeu.
8 Diz-se de ou animal oriundo de determinada propriedade, isto é, nascido e criado ali.
Ao ler as definições, entende-se que a denominação “crioulo”, quando dado às sementes, não compactua com o real poder que carregam historicamente as pequenas porções vegetais compactadas. Para começar, as sementes tradicionais daqui não são importadas dos europeus(1). Posteriormente, é também o “apelido” dado àquele que já nasce colonizado, versus aquele que é “livre”, como a Europa(7). Finalmente, não é oriundo de propriedade alguma(8), pois faz parte da terra, e também é parte da Terra, bem como os humanos e outros animais, fungos e fatores abióticos. Então, pessoalmente, tenho deixado de usar o termo “crioulo” e coloco nas palavras “ancestrais” ou “tradicionais”.
Mas em relação ao agronegócio. Por que não compartilhar com eles? O motivo, a meu ver, é simples: para manter as sementes como tradicionais. A etnobotânica de cada semente ancestral carrega em si a resistência cultural, alimentar e histórica de povos diferentes, e nenhum desses povos era devastador, desmatador ou colonizador para cima do espaço aos quais tais vegetações pertencem. Além disso, essas sementes são não transgênicas, não selecionadas biogeneticamente, e não alteradas ou fortalecidas de nenhuma forma não espontânea – com suas F1, F2, F3…, para citar Gregor Mendel, o pai da genética. Essas sementes, aliadas com os conceitos mais puro e tradicional da agroecologia e biodinamismo, não são atacadas desproporcionalmente por vetores (ou “pragas”), não fazem uso descontrolado de água e de nutrientes do solo, e não são veneno para quem as consome posteriormente em forma de frutos, folhas, cereais ou grãos. E é por isso que precisam ser protegidas – ou, ao compartilhar com os deuses da engenharia genética, elas perderão suas características e só teremos acesso ao que o mercado do capital quiser nos fornecer.
O meu problema, porém, foi grande: eu moro num apartamento sem varanda, e as únicas plantas que tenho, atualmente, apesar de já ter vivido com muita interação de roça, são pés de manjeiricões e ora-pro-nóbis que ficam na minha janelinha. E agora, como parte do curso, eu ganhara centenas de sementes novas, e não tinha onde plantar.
Pois me botei uma missão. Vou distribuir. Fiz um curso de verão no Sustentarea, na Faculdade de Saúde Pública da USP, e dividi meu milho preto com todos da turma, incluindo professores. Agora, gente de todo o Brasil tinha sementes. Depois, distribuí mais algumas para a minha professora Aline Carvalho, da Horta da FSP, na qual ela vai plantar quando pertinente.

Depois, visitei com muito gosto e prazer a aldeia Piaçaguera, em Peruíbe, habitada, cuidada e protegida pelo povo Guarani. Levei mais sementes para compartilhar e para que eles plantassem.
Finalmente, eu estava com mais sementes em casa, pois eram muitas!, e não sabia o que fazer. Aguardei a oportunidade, e quando um dos meus colegas do grupo Grande São Paulo do MST – Sistemas Agroflorestais pediu sementes ou mudas para implementação de um novo sistema de agrofloresta em Cajamar, entreguei todas as restantes para eles, pois eu sabia que elas estariam seguras.



Semente é para plantar! Agora, com todas elas distribuídas, eu me tranquilizei. Por que é tão importante sementes hoje em dia? Pois sem elas, não se planta. Sem plantar, não se alimenta ninguém, e sem alimentar ninguém, ninguém vive.
O planeta está em crise – crise social, econômica, ambiental. Plantar é revolucionário, pois a preservação ambiental é a solução de problemas de todas as classes anteriormente citadas. O ecoturismo, a agroecologia, as comunidades quilombolas, indígenas, ecovilas, cidades caminháveis, cidades verdes, economia solidária, e incorporação de conhecimentos ancestrais podem sim retirar o mundo do colapso. Esses conhecimentos, técnicas e saberes não podem ser perdidos – e jamais podem ser roubados por corporações e pelo capitalismo desenfreado.

Apesar das tentativas de apagamento histórico e contemporâneo da humanidade que ainda existe, e dos genocídios e epistemicídios que insistem em acontecer, a resistência humana é incrivelmente forte, e a sabedoria ambiental é altamente resiliente. Se não lembrarmos de passar para frente o que sabemos, está tudo bem. É só aprender de novo. A natureza está aí, e enquanto quisermos saber, ela vai ensinar.
Referências:
Tem Dendê, tem Axé – etnografia o dendezeiro. Raul Lody. 2 ed, 2024.
Pesquisa | SciELO – sementes ancestrais
Pesquisa | SciELO – sementes tradicionais
Pesquisa | SciELO – sementes crioulas
Thiago Luiz no Instagram
Thalyane Silva no Instagram
Horta Madalena no Instagram
Marcelo Noronha no Instagram
Sustentarea no Instagram
Aldeia Piaçaguera no Instagram
FSP – USP no Instagram
Horta da FSP no Instagram
José Wilk (SAFs – MST Grande SP) no Instagram
Dr. Raul Lody no Instagram
Associação de Agricultura Orgânica(AAO) no Instagram
No momento desse post, fui contemplada com a participação como membro do Programa de Embaixadores de Saúde Planetária de 2025(PESP 2025), coordenado pelo Instituto de Estudos Avançados da USP(IEA-USP). É um prazer fazer parte de tão digna e importante tarefa, e desejo trazer reflexões e conhecimentos de tudo que eu mesma aprender sobre Saúde Planetária em suas múltiplas faces.

Deixe um comentário