Esses dias eu vi um post no Instagram do Dr. Guilherme Ranieri do Matos de Comer. Eu tenho o livro dele autografado, e para mim é uma das relíquias aqui em casa. Todo mundo me fala “menina, baixa o app de identificação de flores”, mas eu nunca baixo; eu saio com o livro “Matos de Comer – Identificação de Plantas Comestíveis” e “Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs) no Brasil” do Dr. Valdely Kinupp no braço e com meu celular para tirar foto das plantinhas. E sou aquela companhia chatinha de trilha: demoramos horas para fazer um trajeto curto, porque paro, tiro foto e ainda falo “aquilo ali é uma tanchagem!” para quaisquer vítimas que estiverem ao meu lado.

Voltando ao Instagram, o post era sobre a fruta araçá, que é um primo da goiaba, porém primo brasileiro – e a goiaba, o primo gringo. E isso me fez compartilhar, de forma bastante expositiva, um causo meu com essa fruta nos comentários desse post. Há alguns anos, meu avô Erasmão, pai da minha mãe, presenteou a gente com um pé de araçá. Um pé que começou pequeno, cresceu, desenvolveu e deu frutos. Vivíamos mudando de vaso porque a planta danada crescia e se desenvolvia que era uma beleza! E morávamos em apartamento, então chegamos até a comprar aqueles cestos de lixo industriais para caber a árvore.
Olhar a planta florescer, o fruto desenvolver, os pássaros descansarem nos galhos firmes daquele pedaço de Brasil na nossa varanda era uma atividade muito prazerosa. Porém, num dia de páscoa, meu avô descansou. E a partir daí, curiosamente, não importava o esforço colocado nos cuidados, a planta foi padecendo, até que um dia, enfim, ela mesma descansou.
Perder a árvore foi um segundo luto. Luto esse que nunca acabou. Mas alguns eventos estranhos, senão construtivos, passaram-se nesses últimos meses que vale a pena compartilhar.
Antes de partir, presenteamos meu avô com algumas galinhas – só sobraram duas, no final das contas, mas eram nossos xodózinhos. Pets, mesmo. Bianca e Beth o nome. A Bianca, minha xará, teve esse nome porque era bravinha e teimosa, além de super curiosa. A Beth, apelido para Robertina, já é mais assustada e reservada, hesitante, eu diria. O fato é que, por motivos de saúde, há algumas semanas descobrimos que precisávamos tirar as galinhas da roça do meu avô, porque a vovó Naná não poderia mais ficar com elas. E aí começou a correria.

Ficamos com medo. Não queríamos dar para algum vizinho da região no interior, porque lá é comum o hábito de comer galinha caipira. Eu me recusei. Pois fui consultar meus colegas de assentamentos agrícolas, para ver se encontrava algum que não comesse a bendita galinha, e foi difícil. Até que uma colega, muito carinhosa, Joselene, da comuna Irmã Alberta, disse que ela mesma tinha galinhas que ela não comia, eram as bebês dela. Falou que acolheria a dupla dinâmica, e ainda se eu quisesse, mandaria-me os ovos produzidos. Agradeci muito, e comecei minha organização. As galinhas estavam a 200km de distância da comuna, e eu preparei meu carro para buscar as galinhas e viajar pela estrada com duas penosas no banco de trás. Pesquisei como transportar galinhas. Minha amiga Talita ofereceu a caixa. Minha mãe se ofereceu para ir comigo correr atrás das bichinhas na roça para colocar na caixa com cuidado. Procuramos a vasilha de água e de milho para elas ficarem tranquilas, e até direcionamos o ar-condicionado do carro para refrescar a caixa e as aves não superaquecerem. Mas não foi necessário.
Curiosamente, minha tia-avó que mora perto disse que a sogra-da-minha-prima tinha roça, e criava galinhas também. Pois combinaram, e foram buscar as galinhas na rocinha, e agora as galinhas passam bem. Estão seguras e continuam causando na mesma cidade. Quando mandaram mensagem falando que elas estavam na nova casa, aí sim, choramos. De alívio. De saudade. Não sei. Só sei que foi assim.
Num universo diferente, dessa vez, conheci um jogo de videogame que já ganhou diversos prêmios. Chama-se Gris, do estúdio Nomada, independente. Nunca soube do que se tratava o jogo, mas comecei a jogar em casa. No começo fiquei confusa, não compreendi direito a jogabilidade, e só insisti um pouco porque falaram que valia a pena. No começo, a personagem do jogo estava confortavelmente alocada numa estátua de pedra com forma de mulher. Que eu me lembre – corrijam-me, se necessário – essa estátua quebra repentinamente, e a personagem cai desamparada, e a sua voz é perdida. Há um botão, se não me engano a “bolinha”(jogando no PS5) que faz com que ela cante – mas a voz não sai.

A personagem passa por lugares de ruínas, escuros, sombreados. Depois, passa por uma tempestade de areia vermelha, muito forte e que impede que o personagem avance, a não ser por estratégias e proteção atrás de mais ruínas. Em seguida, passa por uma linda floresta, onde encontra uma criaturinha muito simpática que gosta de maçã. Ao ajudá-la, dando maçãs, a criaturinha ajuda a personagem também abrindo caminhos e indicando direções. Após, a personagem se encontra em um ambiente azulado, com água em toda parte, em que ela se torna uma híbrida nadadora e escapa de perigos da escuridão da água. Finalmente, após toda essa aventura, ela se encontra num ambiente amarelado, lindo, e sua voz é recuperada e ela pode cantar novamente, com uma explosão de todas as cores antes vistas, misturadas em todo lugar.
Terminei o jogo, e foi só aí, depois de horas e horas de entretenimento, que percebi do que se tratava. No final, no encerramento do jogo, a personagem encontra novamente a estátua de mulher, gigante, abraça-a e a beija, e se despede. Era um jogo de luto.

Chorei como se água não fosse um problema, eu me desidratei e fiquei impactada. Eu joguei o jogo, que agora, após terminar, posso afirmar que foi um dos mais lindos da minha vida, e em momento algum percebi que se tratava das fases do luto. Cinza, no início, era negação. Vermelho era raiva. Verde era barganha. Azul era depressão. E amarelo, aceitação. Mas o jogo não só terminou no amarelo: fez questão de finalizar o jogo com todas as cores misturadas, dentro do cenário inteiro do universo do jogo, feitas em uma belíssima aquarela espalhada pela tela.
O luto não termina. As fases não passam. Elas estarão sempre ali, misturadas, em toda parte, algumas ali, outras aqui. Apesar disso, porém, ainda é possível recuperar nossa voz e cantar novamente.
Nem tudo são flores, mas tudo é semente. Zack Magiezi.
Referências:
Matos de Comer. Post no Instagram sobre o araçá.
Jogo de videogame Gris Game – Nomada Studio .
PANCs no Brasil. Valdely Kinupp | PANC | Brasil
Instagram do Zack Magiezi, com poesias maravillhosas.
Instagram do MST Grande São Paulo, incluindo a Comuna Irmã Alberta.

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