Palavras de Manifesto: uma manifestação

De acordo com o dicionário Michaelis, um manifesto é, dentre diversas definições possíveis para esse vocábulo, “Declaração pública para finalidade diversas” ou “Declaração pública em que o chefe de uma nação ou um partido político, um grupo de pessoas ou um único indivíduo esclarece determinadas posições ou decisões”.

Quando eu era pequena, tinha (literalmente) medo da palavra Manifesto. Parecia ser uma coisa associada a criminosos, provavelmente porque eu vi muitas séries de televisão, como Criminal Minds, Law and Order, entre outras tratando-se do exercício da lei, onde indivíduos ou organizações com índoles do pior gênero lançavam manifestos para espalhar os seus ideais, botando terror na população.

Mas, ao se considerar a primeira definição do Michaelis, a palavra se apequena, e até fico com menos medo dela. Uma declaração pública fazemos todo dia. No instagram postamos algo que nos interessa, no YouTube ou TikTok assistimos um vídeo que nos alegra ou nos atiça a curiosidade, compramos roupas de certa marca, comemos em certo restaurante, presenteamos certas pessoas, estudamos determinados assuntos… todo dia fazemos declarações públicas.

Ouso dizer, ainda, que não só fazemos declarações públicas diariamente. Mais: fazemos escolhas políticas. Não, não do tipo esquerda, direita, cima, baixo. Políticas, de acordo com o mesmo dicionário supracitado, é “Conjunto de princípios ou opiniões políticas”, dentre outras definições, e isso se aplica a cada brasileiro, estadunidense, sírio, congolês, francês, chinês, enfim, ao mundo inteiro de humanos. Digo humanos, porque ainda é grande a discussão sobre direitos políticos aos animais não-humanos.

Então, se eu escolho o que vou comer, isso é político? Acredito que sim. E se eu não tenho condições de escolher o que vou comer, isso é político? Absolutamente. Uma prova que sustenta tal afirmação é um brilhante estudo recém publicado pela Dra Fernanda Sabatini, sob a coordenação da Profa.Dra. Fernanda Scagliusi, ambas da Faculdade de Saúde Pública da USP, sobre as vontades alimentares de mulheres em situação de rua. E, em resumo, elas desejavam:

comida com dignidade, descrita como quente, variada, segura, comida à mesa e servida em pratos ou talheres; em abundância, com fartura, variedade e autonomia na hora de se servir; saudável, visando cuidar da saúde e se sentirem bem; além de expressarem desejo por refeições “do passado”,  desejam se alimentar como faziam antes de estarem em situação de rua.

Isso não é político? Desejar alimentos de uma certa característica ou padrão, e não poder, por estar passando por uma vulnerabilidade social tão grave que é um empecilho para exercer direito tão básico e humano como o à alimentação, constando mesmo no art. 6 da Constituição Federal? E, quando a “culpa” dessa vulnerabilidade não é do indivíduo, de quem é a culpa?

Então, quando fazemos uma “declaração pública para fins diversos”, além de estarmos fazendo um Manifesto, estamos manifestando – do verbo manifestar, exprimir – um pensamento, opinião ou orientação. Acredito que é seguro dizer que manifesto é, também, política.

Há alguns anos conheci uma banda que ouço até hoje e aprecio imensamente chamada “Les Soeurs Boulay”, duas irmãs compositoras verdadeiramente talentosas do Québec, no Canadá. E uma música sempre ficou na minha cabeça, feita em harmonia vocal, majoritariamente acapella, em francês. Chamada De La Noirceur Naît la Beauté.

Ceux qui ordonnent
Ils ont lancé
De la fumée
Aux yeux des hommes
(…)
Ceux qui ordonnent
Se sont noyés
De la noirceur naît la beauté
La foi au corps
On sait nager
On est plus forts entremêlés
On est la Terre et le brasier
Sous les paupières
On peut rêver

Em prosa, vou traduzir livremente aqui o que significa o trecho destacado acima. “Aqueles que dão as ordens lançaram fumaça nos olhos dos homens. (…) Aqueles que dão as ordens se afogaram – da escuridão nasce a beleza -, a fé no corpo, nós sabemos nadar; nós somos mais fortes entrelaçados; nós somos a Terra e o braseiro. Sob as pálpebras podemos sonhar”.

Então, inspirada na página do Instagram chamada Good Good Good (@goodgoodgoodco), que fez um post falando sobre como manter os ânimos de pé em períodos de crise, eu quero sugerir algumas manifestações, atos políticos individuais e maneiras de implementar seu próprio manifesto no dia-a-dia.

  1. Nós somos mais fortes entrelaçados. Comunidade é a chave. Procure, nos seus arredores, iniciativas de pessoas buscando agir para corrigir alguma injustiça. Seja distribuir refeições de final de semana num grupo da igreja/mesquita/terreiro/sinagoga/templos/centros, numa ONG local de limpeza de praças, num voluntariado para cuidar de crianças em uma creche, numa tarde com idosos em casa de repouso, numa universidade que tem um grupo de estudos, numa horta comunitária… já diria o provérbio africano: “se queres ir rápido, vá sozinho; se queres ir longe, vá acompanhado”
  2. Sob as pálpebras podemos sonhar. A esperança é uma coisa muito frágil, mas não que se quebre facilmente. É frágil pois se perdida, tudo desmorona, como um alicerce numa construção, um pilar num grande prédio. Porém, bem como um alicerce ou um pilar, ela sustenta tudo com tanta força, com tanto embasamento, que se ela existe, ainda que pequena, ainda que escondida, tudo se edifica. Então, não perder a esperança é fundamental para a construção da mudança tão almejada.
  3. Da escuridão nasce a beleza. Mesmo em momentos difíceis, em que tudo parece perdido, tudo que pudermos fazer já é muita coisa. Há um provérbio islâmico que ouvi em casa toda a minha infância, que é “salve uma vida, salve o mundo”. O que parece ser pouco demais partindo da gente já é grandes coisas, sim. Não consigo comprar orgânicos em todas as refeições? Pelo menos a alface consigo comprar com um produtor orgânico que é do bairro vizinho. Não consigo tirar as pessoas das ruas? Consigo doar uma marmita por mês para uma ONG confiável. Quero tirar a carne do meu prato, mas não consigo? Tento a segunda sem carne. Não consigo abrir mão dos plásticos no dia-a-dia? Carrego pelo menos uma garrafinha de água nos lugares em que vou. Não quero me candidatar a vereador/deputado/governante em geral? Não preciso, posso pesquisar candidatos em cada eleição e votar naquele cujas propostas mais se emparelham com meus ideais, sejam eles quais forem. Não consigo financiar alguma organização? Dou um like num vídeo, num post de Instagram, compartilho algo do TikTok que eu acho relevante com um amigo.

Finalmente, nós sabemos nadar. E, não se esqueçam, somos a Terra e o braseiro. Meu pai já diz o tempo todo que um padre da igreja dele falava “uma grande escadaria se começa com o primeiro degrau”. Todos nós somos degraus. Cada um colocando um tijolinho conseguimos chegar lá em cima, onde queremos. Nós já sabemos o que fazer. Já sabemos nadar. Só falta se colocar na água e começar. E somos a Terra. Não é algo distante, que vemos nas notícias, que ouvimos falar. Somos nós. Nós somos aqui, nós somos lá, nós somos a Terra, a humanidade, as plantas, as águas, o ar, o braseiro. E por sermos também o braseiro, podemos ser a ignição de grandes fogos, ou revoluções.

Esse é o meu manifesto.

Sejam bem-vindes a Morangos e Mirtilos 🙂

À disposição, Bianca.

Referências:

Artigo Feeding desires: Understanding the food needs and wishes of women experiencing homelessness in São Paulo. https://www.fsp.usp.br/site/noticias/mostra/57954

Constituição Federal de 1988. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm

Dicionário Michaelis Online. https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/

Good Good Good no Instagram. https://www.instagram.com/p/DFLx1ASyBM6/?img_index=1

Música “De La Noirceur Naît La Beauté”, Les Soeurs Boulay. https://www.youtube.com/watch?v=VTU7Iy58pVw

Deixe um comentário

Bianca

Sinta-se em casa com um chazinho, bolo, um bom livro (ou uma boa leitura aqui no site) e uma bonita, orgânica, fresquinha porção de Morangos e Mirtilos.

Let’s connect